domingo, 11 de dezembro de 2022

Viver a poesia

 Esta semana houve cheias na minha cidade, há uma crise da habitação terrível, pessoas sem abrigo, e o que mais me comove é uma derrota no futebol? Que coisa mais idiota! 


Talvez não seja tão idiota assim. Esta emoção por empréstimo é muito parecida com a que nos dá a poesia. Uma emoção que não é nossa mas, por artes demiúrgicas, virou nossa. 


Hoje paira uma melancolia no ar – a do quase. «Quase chegávamos lá.» E o que era esse lá? Era as meias-finais (mais sofrimento) e a final (ainda mais sofrimento). 


Sim, Pessoa paira sobre este desabafo («O poeta é um fingidor»), mas também o mito de Sísifo: nunca chegamos lá, mas estamos sempre a tentar chegar lá. 


Parvos são os que fazem poesia à volta da bola. Ela não precisa disso, já é poesia. As metáforas em torno do esférico rolando no gramado sempre me pareceram redundantes. 


Sofrer com um jogo de futebol é ridículo? Sim. Mas, como diria o outro, «mais ridículo ainda é não sofrer». 


Hoje podem vir cheias, tornados, até um novo terramoto de Lisboa, que nada abate o doce sentimento de perda (ainda por cima uma perda de brinquedo!) que paira no ar. 


Há um poema de Camões que afinal não é de Camões mas parece de Camões e que reza assim: «O dia em que nasci moura e pereça...»


O lado bom: agora já sabemos como acordou Paris (a parte de Paris que não é habitada por portugueses) no rescaldo da final do Euro 2016. 


O segundo lado bom: talvez agora a malta passe a ler mais poesia. É que, parecendo que não explica nada, explica tudo!

2 comentários:

  1. Eu até fiz um bolo para festejar a hipotética vitória, mas parece que foi um péssimo agouro (desculpai a redundância). Tudo isto porque o bolo saiu bem...

    ResponderEliminar

Coimbra

  Há bagagem literária fora de formato Sempre houve literatura oral Sempre houve performance e palavra dita/dialogada O povo não é inferior ...