Esta semana houve cheias na minha cidade, há uma crise da habitação terrível, pessoas sem abrigo, e o que mais me comove é uma derrota no futebol? Que coisa mais idiota!
Talvez não seja tão idiota assim. Esta emoção por empréstimo é muito parecida com a que nos dá a poesia. Uma emoção que não é nossa mas, por artes demiúrgicas, virou nossa.
Hoje paira uma melancolia no ar – a do quase. «Quase chegávamos lá.» E o que era esse lá? Era as meias-finais (mais sofrimento) e a final (ainda mais sofrimento).
Sim, Pessoa paira sobre este desabafo («O poeta é um fingidor»), mas também o mito de Sísifo: nunca chegamos lá, mas estamos sempre a tentar chegar lá.
Parvos são os que fazem poesia à volta da bola. Ela não precisa disso, já é poesia. As metáforas em torno do esférico rolando no gramado sempre me pareceram redundantes.
Sofrer com um jogo de futebol é ridículo? Sim. Mas, como diria o outro, «mais ridículo ainda é não sofrer».
Hoje podem vir cheias, tornados, até um novo terramoto de Lisboa, que nada abate o doce sentimento de perda (ainda por cima uma perda de brinquedo!) que paira no ar.
Há um poema de Camões que afinal não é de Camões mas parece de Camões e que reza assim: «O dia em que nasci moura e pereça...»
O lado bom: agora já sabemos como acordou Paris (a parte de Paris que não é habitada por portugueses) no rescaldo da final do Euro 2016.
O segundo lado bom: talvez agora a malta passe a ler mais poesia. É que, parecendo que não explica nada, explica tudo!
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ResponderEliminarEu até fiz um bolo para festejar a hipotética vitória, mas parece que foi um péssimo agouro (desculpai a redundância). Tudo isto porque o bolo saiu bem...
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