quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Coimbra

 

  1. Há bagagem literária fora de formato
  2. Sempre houve literatura oral
  3. Sempre houve performance e palavra dita/dialogada
  4. O povo não é inferior
  5. Nem estúpido
  6. Cultura erudita vs. Cultura popular
  7. Cultura popular vs. Cultura de massas
  8. Cultura (participada) vs espectáculo (consumido)
  9. “I'm talking to you, I love you, Madrid! I'm gonna Share this with you”
  10. Não há obsceno
  11. Não há palavras proibidas
  12. Criticar e criar não são opostos
  13. A crónica não tem de ser menor, a BD não é só para crianças
  14. Marginal é um conceito fluido, il cânone è mobile 
  15. Os géneros menores não são necessariamente menores
  16. Ler pode ser: pensar com prazer
  17. As misturas não são necessariamente más
  18. Um escritor não perde qualidades se dialogar com outros autores
  19. O individual não é melhor que o colaborativo
  20. As palavras não morram nem secam se justapostas ou mescladas com outros códigos
  21. Ler/escrever/pensar = brincar
  22. Com a ascensão do processador de texto, a montagem do cinema influenciou muito a ficção escrita
  23. Brincar é a coisa mais séria do mundo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Rita Lee: a artista mais censurada da ditadura militar

Como falámos numa das aulas, no período do Estado Novo, ao contrário da maioria das coisas, os livros não passavam pela censura, uma vez que não existia essa ‘necessidade’, dado que, a grande maioria da população era analfabeta, logo a acessibilidade do público em geral a livros era muito reduzida e guardada para as elites.  

Por outro lado, a música, ao contrário dos livros, quebra a barreira da alfabetização. Assim, as letras cantadas tornam-se algo mais abrangente para a maioria e por isso mesmo, vistas pela ditadura como um possível perigo. 


Rita Lee foi a artista mais censurada durante a ditadura militar brasileira (1964 - 1985). Devido a temas presentes nas suas composições como sexualidade, menstruação, drogas e ‘comportamentos desviantes’ as suas obras eram censuradas por desvios da ‘moral e bons costumes’.



Quando a censura ocorria numa fase mais tardia do processo, e as músicas já tinham sido gravadas em vinil, a Polícia Federal ‘riscava’ as 'canções proibidas’ nos discos, para que quem comprasse o LP não conseguisse ouvi-las.


Mais tarde, como forma de denúncia de toda aquela conjuntura, na música ‘Arrombou o Cofre’, Rita menciona vários nomes de políticos, bem como da líder da censura, Solange Hernandes. 


“Nunca pensei que o que fiz durante 50 anos fosse o que se chama feminismo: eu ligava o foda-se e entrava decidida no mundinho considerado masculino, cantando sobre o que me desse na telha; de menstruação a menopausa, de trepada a orgasmo. Fora o resto.” (2018)


Sofia Martins


'A mão esquerda de Vênus' - Fernanda Young

A mão esquerda de Vênus (2016) é a segunda obra poética de Fernanda Young (1970 - 2019). Algo que considero bastante interessante é o facto do livro ser dividido em duas partes - na primeira, é possível observar o processo criativo da autora e entender melhor a essência de cada poema, através da digitalização do caderno onde escreveu os rascunhos dos 45 poemas; lá encontramos também desenhos, rabiscos, fotos, colagens, pinturas, cartas de tarot e bordados (tudo elementos que ia colocando à medida que escrevia); já a segunda parte apresenta os poemas de forma organizada, tal como um livro convencional.


O título da obra refere-se à ‘mão esquerda’, utilizada para tirar as cartas de tarot, e relaciona-se com uma parte mais subconsciente e sentimental. Por outro lado, Vénus, remete à deusa do amor, que inclusivamente a autora tem o seu símbolo tatuado na mão. 


Apesar de cada poesia ser um texto independente, a obra no seu todo mantém uma identidade e coesão do início ao fim (ainda que com algumas oscilações, o sentimento é constante).


‘Sempre tentei escrever como homem; hoje não me importo mais’ (YOUNG, Fernanda, 2016). Ao contrário de obras anteriores, Fernanda sentiu que tinha adquirido, naquele momento, uma liberdade de expressão maior. Posto isto, é uma composição com uma essência mais feminina, mas não é de todo um livro ‘só para mulheres’.

 

As temáticas predominantes na obra são relações amorosas (nomeadamente do poder de sedução e destruição de si e do outro) e a mulher em si - as suas emoções, sensações, tristezas e sexualidade. A autora muitas vezes fala acerca do amor de modo forte, bruto, cortante, ríspido, cru e pouco direto, embora também existam momentos mais doces e românticos.


De acordo com a escritora, o processo de composição de poesia é algo muito complexo, que por vezes a intimidava. No entanto, talvez devido à sua 'obsessão pela palavra', considerava também que os poemas eram a 'salvação pra uma angústia insustentável.'

                

A meu ver este livro é uma obra extraordinária, repleta de uma grande carga emocional, dando por isso a sensação para quem lê de ser algo bastante pessoal, recheado de versos íntimos.


Aqui fica um pequeno vídeo da própria Fernanda Young a declamar um dos poemas - ‘Lacuna Lacaneana’: https://www.youtube.com/watch?v=urPC6h01Kig 


‘A vida acaba com a gente. Poesia e o humor salvam.’ (YOUNG, Fernanda, 2018) 


Sofia Martins

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Ainda está a valer?

Se ainda estiver, aqui vai: 

andava à pesca sereno e descalço quando senti a rede agitar-se… não hesitei e puxei-a feito cavalão embora cínico pensando a mim não me enganam: devem ser fraldas devem ser caranguejos. a princípio confesso senti-me curto para a investida tal era a avidez daquele newton escamoso a fazer força de lá do oceano. mas quem porfia mata caça e fiquem sabendo o adágio tem razão! triunfal já com a rede à superfície, aproximei e afastei as minhas trombas dela, torci o nariz esfreguei os olhos e, finalmente nítida, a vista ofereceu-me esta imagem. lembrou-me a cadeira de literaturas marginais. a rede, é ela a fonte, e o autor ora foda-se eu não sei quem é.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Plágio criativo

 Podem parecer dois conceitos incompatíveis. Serão?

Proponho que se ouça este "álbum", entre aspas por não ser oficial nem autorizado pelos artistas envolvidos: Sadevillain. Este "álbum" foi uma experiência que um fã do rapper MF DOOM e da banda de Soul/R&B Sade decidiu fazer: pegar em instrumentais da banda, colocar-lhes uma batida típica da produção do rapper, encaixar versos do rapper e vocais da cantora da banda britânica, Sade Adu.

O resultado é interessante. Nada do que compõe o álbum foi criado por este fã; no entanto, a partir de algo já existente, surgiu algo novo. É criativo, sendo roubo. Nem a banda, nem o rapper autorizaram isto. Mas ainda bem que alguém decidiu ignorar as regras dos direitos autorais. Ficou giro.

https://www.youtube.com/watch?v=RZSY9lO0S-I&t=398s

domingo, 11 de dezembro de 2022

Viver a poesia

 Esta semana houve cheias na minha cidade, há uma crise da habitação terrível, pessoas sem abrigo, e o que mais me comove é uma derrota no futebol? Que coisa mais idiota! 


Talvez não seja tão idiota assim. Esta emoção por empréstimo é muito parecida com a que nos dá a poesia. Uma emoção que não é nossa mas, por artes demiúrgicas, virou nossa. 


Hoje paira uma melancolia no ar – a do quase. «Quase chegávamos lá.» E o que era esse lá? Era as meias-finais (mais sofrimento) e a final (ainda mais sofrimento). 


Sim, Pessoa paira sobre este desabafo («O poeta é um fingidor»), mas também o mito de Sísifo: nunca chegamos lá, mas estamos sempre a tentar chegar lá. 


Parvos são os que fazem poesia à volta da bola. Ela não precisa disso, já é poesia. As metáforas em torno do esférico rolando no gramado sempre me pareceram redundantes. 


Sofrer com um jogo de futebol é ridículo? Sim. Mas, como diria o outro, «mais ridículo ainda é não sofrer». 


Hoje podem vir cheias, tornados, até um novo terramoto de Lisboa, que nada abate o doce sentimento de perda (ainda por cima uma perda de brinquedo!) que paira no ar. 


Há um poema de Camões que afinal não é de Camões mas parece de Camões e que reza assim: «O dia em que nasci moura e pereça...»


O lado bom: agora já sabemos como acordou Paris (a parte de Paris que não é habitada por portugueses) no rescaldo da final do Euro 2016. 


O segundo lado bom: talvez agora a malta passe a ler mais poesia. É que, parecendo que não explica nada, explica tudo!

Coimbra

  Há bagagem literária fora de formato Sempre houve literatura oral Sempre houve performance e palavra dita/dialogada O povo não é inferior ...