Rodinhas são
sinónimo de conforto e segurança, pelo menos, é a isso que as associo, quer estejam
atreladas a uma bicicleta rosa choque, quer sejam sublinhados ou itálicos num texto.
É a elas que devemos agradecer pelo nosso equilíbrio, seja enquanto estamos no
topo dessa mesma piroseira ambulante, seja quando estamos a sublinhar um das
dezenas de textos que temos que ler para a faculdade. São essas mesmas “rodinhas”,
ou seja, sublinhados, itálicos ou reticências que ajudam o leitor a distinguir
o importante do dispensável, digamos que são uma facilitação do mundo.
A verdade é
que os excessos do uso das rodinhas têm diversas consequências diretas, a
primeira é o simples facto de que se nunca as tirarmos nunca vamos aprender a andar
autonomamente, a segunda é que com tantas “rodinhas” o texto acaba por perder
força. Existe sempre aquele nosso colega que nunca precisou de rodinhas para
começar a andar, como existe também aquele que as usa de forma diferente, o que
as tornou únicas e essenciais para o texto.
Assim, no meio
de tantos pequenos acidentes de viação contra os portões dos vizinhos e de uma quantidade
cegável de amarelo fluorescente nos nossos cadernos, surge a poesia concreta e
experimental. Aí o poema surge como autónomo, ou seja, não surge como expressão
de um conteúdo, pois o conteúdo provém do próprio objeto que é já o poema. Entende-se
assim que todos são A´s, mas todos os A´s são diferentes.
Então é isso que é poesia?
Definir poesia
é o mesmo que aguardar pela chegada do Messias. O prazer está no caminho da
procura pelo saber, como está na espera infinita da chegado do Prometido. Não importa
a que conclusão cheguemos, nem que o próprio Messias venha, pois se vier não é
o Messias, nem se definirmos poesia algo se torna poesia.
Assim,
o não entender é uma condição inerente ao prazer da arte, pois se chegássemos a
conclusões rapidamente as abandonaríamos, tal como Adília Lopes soltou o peixe,
logo após o ter apanhado.
Celina Fidalgo
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