segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Sumário dia 16 de novembro- Celina Fidalgo

 

Rodinhas são sinónimo de conforto e segurança, pelo menos, é a isso que as associo, quer estejam atreladas a uma bicicleta rosa choque, quer sejam sublinhados ou itálicos num texto. É a elas que devemos agradecer pelo nosso equilíbrio, seja enquanto estamos no topo dessa mesma piroseira ambulante, seja quando estamos a sublinhar um das dezenas de textos que temos que ler para a faculdade. São essas mesmas “rodinhas”, ou seja, sublinhados, itálicos ou reticências que ajudam o leitor a distinguir o importante do dispensável, digamos que são uma facilitação do mundo.

A verdade é que os excessos do uso das rodinhas têm diversas consequências diretas, a primeira é o simples facto de que se nunca as tirarmos nunca vamos aprender a andar autonomamente, a segunda é que com tantas “rodinhas” o texto acaba por perder força. Existe sempre aquele nosso colega que nunca precisou de rodinhas para começar a andar, como existe também aquele que as usa de forma diferente, o que as tornou únicas e essenciais para o texto.

Assim, no meio de tantos pequenos acidentes de viação contra os portões dos vizinhos e de uma quantidade cegável de amarelo fluorescente nos nossos cadernos, surge a poesia concreta e experimental. Aí o poema surge como autónomo, ou seja, não surge como expressão de um conteúdo, pois o conteúdo provém do próprio objeto que é já o poema. Entende-se assim que todos são A´s, mas todos os A´s são diferentes.

Então é isso que é poesia?

Definir poesia é o mesmo que aguardar pela chegada do Messias. O prazer está no caminho da procura pelo saber, como está na espera infinita da chegado do Prometido. Não importa a que conclusão cheguemos, nem que o próprio Messias venha, pois se vier não é o Messias, nem se definirmos poesia algo se torna poesia.

                Assim, o não entender é uma condição inerente ao prazer da arte, pois se chegássemos a conclusões rapidamente as abandonaríamos, tal como Adília Lopes soltou o peixe, logo após o ter apanhado.


Celina Fidalgo

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