quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Gisela e as suas verdades absolutas (O meu nome não é Raquel)

 

A minha irmã Gisela está naquela idade em que acha que tudo o que diz são verdades absolutas. Não existe nada além daquilo que ela pensa, tudo o que os outros pensam está errado e se alguém a tenta chamar à realidade ela desata aos berros a dizer que está tudo contra ela e que ninguém percebe como as coisas realmente são. Tem apenas 14 anos e já tem opiniões formadíssimas acerca todos os homens que existem à face da terra, para ela todos os homens são materialistas, só querem saber de prazeres carnais e do que aparece à superfície da mulher, dizendo nas palavras dela “Todos os machos são escrotos, só querem saber de comer as mulheres. São todos um nojo”. Eu já lhe disse por mais do que uma vez que fazer generalizações fá-la passar por tudo menos inteligente, que o ódio só a consome e lhe tira anos de vida e que quem quer que se identifique como um homem não tem necessariamente de gostar de mulheres, esta compulsão de heteronormatividade vigente na sociedade já enjoa. Mas parece-me que lhe diga o que disser entra-lhe a 100 e sai-lhe a 500 porque ela insiste em refutar:

Gisela: “Mas tu não vês oh mana, todos os rapazes da minha turma e da minha escola são assim, é com cada rapariga que vejo a chorar pelos cantos por causa disso, é com cada amiga que eu tenho de consolar à hora de almoço na cantina…Ás vezes elas chegam a chorar por causa do frango ressequido que têm de comer, mas no fundo eu sei que é por conta dessas paixões lamechas, sucedidas de desilusão, que elas têm. Estou farta de tudo isto, mais farta ainda do que ter de dizer sempre que o meu nome é com G e não com J”.

Por um lado eu percebo a Gisela, não é que eu na idade dela fizesse um melhor uso da razão, não tivesse os meus próprios ódios e pensasse que sabia exatamente quem eu era… estando, porém tão longe da resposta a essa pergunta que, reconheço agora que, por mais que tentemos nunca teremos para ela uma resposta concreta. Todos os dias o nosso ser sofre mudanças, todos os santos dias, e todo o santo dia descobrirmos uma coisa nova sobre nós. Enfim, eu quero ajudar a minha irmã, vê-la assim a sofrer sem ela própria se aperceber disso é algo que me causa agonia. Já passei por problemas semelhantes aos que ela está a ter agora, a diferença é que eu tive de passar por isso tudo sozinha sem propriamente a ajuda de alguém, não tive ali nenhum apoio, contudo se agora posso evitar que ela passe por tantos tormentos como eu passei e se já tenho experiência no assunto, o meu dever não é outro senão ajudá-la a tirar a venda que a está a cegar. Portanto ontem à noite decidi fazer como se faz às pequenas crianças e dizer-lhe aos berros para ela parar de ser tão obstinada, pois toda a gente sabe que só assim é que as crianças aprendem realmente. Mentira não fiz nada disso, o que eu na realidade fiz, foi que quando a pequena criatura se foi deitar, puxei a cadeira que se encontrava encaixada na secretária do seu quarto e aproveitando o momento que ela já está tão cansada que nem vontade tem de refutar o que quer que seja, abri a minha cópia da “Antígona” de Sófocles e comecei a ler- lhe a história desta. Para meu não grande espanto, ela ainda estava acordada quando acabei de ler a história e só me disse que tinha gostado da história, que ia sonhar com ela e que apesar de já não ser nenhuma criança tinha estranhamente gostado daquele momento. No dia seguinte quando fui buscar a criatura à escola porque esta ia ter uma consulta no dentista, perguntei-lhe se ela tinha percebido a mensagem que a “Antígona” queria transmitir. Ao que a pequena criatura me responde:

Gisela: “Epá yha acho que sim, a Antígona foi muito corajosa ao transgredir as leis da cidade por amor eterno ao irmão. E epá no fim morreu, algo que me pareceu inicialmente que não se importava, mas depois por breves momentos pensei que se importava porque queria muito casar com Hémon, o seu futuro noivo e primo…o que não sei se ela percebeu é um bocado para o errado…não aprendeu nada com a relação dos pais dela? E Creonte era um bocado estúpido não soube ouvir os conselheiros, o adivinho ou o próprio filho e depois ainda chorou baba e ranho por ter sido castigado pelos deuses e ser condenado a viver sem os que mais amava ou os do próprio sangue como diz lá no livro…julga que tem sempre razão esse rato! Acha- se muito sábio, mas não ouve nada do que lhe dizem, só o estão a tentar ajudar e ele vai e bate com a fuça na parede, mesmo toda a gente o estando a alertar para o facto de que aquilo só traz dor e que ao estar envolvido em todo aquele ódio é, muito pelo contrário, estúpido e não inte…”

Narradora: “Porque te calaste de repente, ó Gisela? Apercebeste-te de alguma coisa?”

Gisela: “Apercebi-me do quão estupida tenho sido ao ver as coisas apenas à minha maneira e não parar para pensar que há outras formas de ver a coisas, ou o quão parvo é não ouvir com ouvidos de ouvir a perspetiva das outras pessoas por um momento que seja.”

Narradora: “Muito bem…E o que pensas em relação aos homens e no que diz respeito às suas relações afetivas, agora?”

Gisela: “Bem…talvez nem todos os homens estejam apenas centrados no corpo da mulher, talvez alguns deles sejam espertos e vejam a mulher além disso, Hémon era sensato ao contrário do pai. E como tu me dizes sempre: "Não podemos pensar automaticamente que só homens podem gostar de mulheres e vice-versa, mulheres também podem amar mulheres assim como homens podem amar homens."...Claro, tanto faz…. o que importa é que ambas as pessoas se sintam atraídas romanticamente uma pela outra desde que não seja cá com maneiras superficiais e porcas…”

          

                                                                                                                                Sofia Teles

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