A mão esquerda de Vênus (2016) é a segunda obra poética de Fernanda Young (1970 - 2019). Algo que considero bastante interessante é o facto do livro ser dividido em duas partes - na primeira, é possível observar o processo criativo da autora e entender melhor a essência de cada poema, através da digitalização do caderno onde escreveu os rascunhos dos 45 poemas; lá encontramos também desenhos, rabiscos, fotos, colagens, pinturas, cartas de tarot e bordados (tudo elementos que ia colocando à medida que escrevia); já a segunda parte apresenta os poemas de forma organizada, tal como um livro convencional.
O título da obra refere-se à ‘mão esquerda’, utilizada para tirar as cartas de tarot, e relaciona-se com uma parte mais subconsciente e sentimental. Por outro lado, Vénus, remete à deusa do amor, que inclusivamente a autora tem o seu símbolo tatuado na mão.
Apesar de cada poesia ser um texto independente, a obra no seu todo mantém uma identidade e coesão do início ao fim (ainda que com algumas oscilações, o sentimento é constante).
‘Sempre tentei escrever como homem; hoje não me importo mais’ (YOUNG, Fernanda, 2016). Ao contrário de obras anteriores, Fernanda sentiu que tinha adquirido, naquele momento, uma liberdade de expressão maior. Posto isto, é uma composição com uma essência mais feminina, mas não é de todo um livro ‘só para mulheres’.
As temáticas predominantes na obra são relações amorosas (nomeadamente do poder de sedução e destruição de si e do outro) e a mulher em si - as suas emoções, sensações, tristezas e sexualidade. A autora muitas vezes fala acerca do amor de modo forte, bruto, cortante, ríspido, cru e pouco direto, embora também existam momentos mais doces e românticos.
De acordo com a escritora, o processo de composição de poesia é algo muito complexo, que por vezes a intimidava. No entanto, talvez devido à sua 'obsessão pela palavra', considerava também que os poemas eram a 'salvação pra uma angústia insustentável.'
A meu ver este livro é uma obra extraordinária, repleta de uma grande carga emocional, dando por isso a sensação para quem lê de ser algo bastante pessoal, recheado de versos íntimos.
Aqui fica um pequeno vídeo da própria Fernanda Young a declamar um dos poemas - ‘Lacuna Lacaneana’: https://www.youtube.com/watch?v=urPC6h01Kig
‘A vida acaba com a gente. Poesia e o humor salvam.’ (YOUNG, Fernanda, 2018)
Sofia Martins

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